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segunda-feira, junho 13, 2005

 

Uma parada gay




Olha aqui, meu querido. Nós já inspecionamos um lendário cinema pornô, visitamos um clube de troca de casais e bailamos num concurso de modelos no carnaval. Enfim, construímos um background responsa no movimento. No entanto, mesmo do alto desse pujante cartel de putaria, titubeamos por alguns instantes ante a um novo desafio que se descortinava. Afinal, desta vez, para o sucesso da empreitada, a primeira medida seria justamente nos livrarmos do nosso background ou, pelo menos, garantir o máximo de segurança possível a nossa retaguarda. Ao contrário das situações anteriores, não teríamos um porto seguro, uma trincheira sequer, partiríamos somente com a cara e a coragem.

Dia 12 de junho constava na agenda: fazer a cobertura da sétima Parada da Diversidade em Curitiba.

Antes de tudo, solicitamos uma alteração na pauta, apenas para que o posterior registro nos autos não deixasse a menor dúvida sobre o intento de tão polêmica jornada. Pedimos que o termo "cobertura" fosse suprimido, dando lugar a um enunciado mais claro, como segue: relatar despretensiosa e superficialmente o evento, sem qualquer aprofundamento nos fatos, muito menos em outrem. Feito o reparo, partimos para o estudo da reportagem, relacionando os pontos a serem levantados, a linguagem apropriada, rotas de fuga etc. Naturalmente, concluímos que não seria possível levantar nada, muito pelo contrário, e que em termos de linguagem deveríamos nos ater somente ao princípio básico da educação: não, obrigado.

Tranqüilos, calmos e serenos da nossa condição de heterossexuais apostólicos romanos, eu, André Pugliesi, e meu colega, Rodrigo Abud, fomos em busca de uma honrosa e saudável averiguação do evento.

Não te michas




Primeiro teorema: mesmo inserido num ambiente desconhecido e altamente hostil, porte-se como se estivesse em casa. Respeitando suas convicções, claro, haja com a maior naturalidade possível. Foi o que fizemos. Agimos como se tivéssemos sido os primeiros a se prostrarem de cócoras no fim do arco-íris, a fim de agasalhar o tal pote de ouro. Mas não é só isso. Reza a sabedoria popular que o homossexual, no caso a modalidade de viado, apresenta como característica primeira o "olhar desconfiado". Portanto, mais do que a desenvoltura no gestual, caprichamos numa filmagem matreira, aprovando geral, mesmo quando confrontados a imagens fortes, de deixar o Gala Gay nas chinelas.



A propósito, ainda na concentração na praça Santos Andrade, já fomos interagindo com aquela rapaziadada deveras escandalosa. Obviamente, sem nos deixar empolgar pelos ânimos acirrados. Passado o trio elétrico, que puxava o desfile, e diversos carros de som, sabiamente seguimos atrás do comboio. É notório que em eventos dessa natureza a vaga de maquinista é sempre a mais concorrida, o que nos deixou muito confortáveis integrando o último vagão. Sem nos preocuparmos com o retrovisor, fomos seguindo mantendo os pneus dos carros à frente sempre em nosso campo de visão como medida de segurança.

Amigo do dono




Outro aspecto fundamental é estar próximo de quem importa. Agindo dessa maneira, você nunca vai encucar com o sumiço repentino dos garçons, com a péssima visão do local etc. É básico. Para tanto, como numa barreira de futebol, protegemos as partes e de frente para as bolas fomos nos movimentando sorrateiramente, visando nos aproximar do território VIP. Não demorou muito, estávamos, imaculados, ao lado das celebridades do mundo gay.

Cada aproximação era um flash. Num pulo, enquadramos algumas drags, em suas personas multicoloridas, abençoamos o reinado de duas misses e, por fim, posamos respeitosamente ao lado do casal que tornou tudo isso possível: Toni Reis e David "Bigode" Harrad, elegantemente trajados. O primeiro, presidente do grupo Dignidade e organizador da Parada da Diversidade. De bem com o alto escalão, nos sentimos funcionários de zoológico, capazes de mandar prender e soltar a bicharada a qualquer momento.



Mas vamos em frente que não é prudente ficar parado. Entre drags, travestis, bichas, homossexuais a paisana, uma pequena quantidade de lésbicas em flagrante delito, e um bom número de simpatizantes, a Parada da Diversidade tomou a avenida Marechal Deodoro. Nos carros de som, o pancadão nervoso ecoava, sempre costurado por uma ou outra execução do hino gay "I will survive", da muito apropriada Gloria Gaynor. Mas o que saltava mesmo aos ouvidos eram os discursos, sempre inflamados, pregando os direitos iguais, que invariável e naturalmente descambavam para uma gritaria desvairada após ser dado o recado. Dignas de nota também as sempre oportunas exaltações do uso de preservativos, tanto indo como vindo, bem como a sua distribuição gratuita.



Apertamos o passo para cruzar a transviadônica e contemplar o final do desfile na Praça Zacarias, antes de partir para a Boca Maldita. Até que nos vimos imersos numa verdadeira faixa de Gaza. Cercados por todos os lados de travestis e congêneres, por um momento vimos a utilidade de virar purpurina, mas logo conseguimos passar dessa para uma melhor. Ilesos, faço questão de frisar. Aportamos então no fétido chafariz da Praça Zacarias. Sob a mira das lentes dos fotógrafos, que aguardavam o desfecho, decidimos assistir de fianco a apoteose.

Por todos os lados, curiosos se encantavam com a animação, aplaudindo e saudando a baitolagem na sua plenitude. O cidadão comum trafegava sem problemas, brincando com o perigo de, por um infortúnio do destino, acabar estampando a capa da Tribuna no dia seguinte e ser obrigado a explicar o que não se explica, apenas se tira sarro.



Fervo na Boca Maldita


O reduto mais tradicional de Curitiba foi escolhido como cenário para a celebração final da Parada da Diversidade. Um grande palco foi montado na junção com a Praça Osório para receber o grande show da noite: a banda Denorex 80. Madrinha dos gays curitibanos, a banda seria encarregada de promover o gran finale. Antes, porém, as celebridades do babado empunharam orgulhosamente o microfone, exigindo um tratamento respeitoso com os homossexuais pela sociedade e, principalmente, perante as leis brasileiras. Uma a uma, um a um, tanto faz, drags, gays, lésbicas e simpatizantes coloriram o palco, discursando entre urras de "ei, ei, ei, Curitiba é gay". Durante todo o tempo alardeou-se que a manifestação havia reunido 80 mil pessoas, o que qualquer olhar leigo poderia contradizer. Não creio que mais de 10 mil pessoas estiveram presentes, o que não diminuiu a importância do evento.



Um dos destaques na faceta palanque do palco foi o ator Sérgio Mamberti, enviado (?) do Ministério da Cultura, representando o ministro Gilberto Gil. A lamentar a ausência da figura mais esperada da noite, Elke Maravilha, madrinha dos homossexuais e lendária jurada da bancada que marcou época no Show de Calouros. Um problema particular impediu que a figura estrambótica de Elke estivesse presente.



Vieram então os tradicionais shows de dublagens, com as drags saracoteando os panos flanando pelo palco, muito pouco para entreter quem não é entendido. E antes que o Denorex aprumasse o seu por ali, fervendo com nostalgia a audiência, eu e Abud nos evadimos do local. Convictos não só do cumprimento de tão periculosa missão, mas também que cada um guarda as costas como bem entender.


Comments:
Agora eu entendi o porquê de vc não me dizer o novo endereço do blog. REalmente, muito sinistra tal "cobertura". Mas os jovens André Pugliesi e Rodrigo Abud, mais uma vez polidos com o verniz da coragem, encararam um trabalho que nenhum veículo teve coragem de cobrir. Parabéns à dupla mais bem sucedida do jornalismo investigativo do Brasil varonil! Trabalho fera!

Abraços, Marcão
 
Meus votos de sucesso ao maior empreendimento de comunicação desde a criação da Rede Manchete de Televisão. Meus parabéns.
 
André, vc continua escrevendo divinamente!
Tenho certeza que, de uma hora para outra, você e o Abud estarão figurando o cenário nacional.
Um abração!!!
 
Olha... eu só acho que faltou a frase do dia, proferida pela "moça" de azul na foto acima, a respeito do cedro muito bem pegado! Sem mais comentários... (Orgulinho do meu menino!)
 
Salve, dupla dinâmica.

Inicialmente, meus pára-choques pela retomada desta valorosa empreita internética, saudabilíssima para a curtura do Bananão.

Ademais, uma crítica destrutiva: parece que Pugliesi e Abud tornaram-se dois personagens nesta nova incursão pelo jornalismo Gonzo. Sem querer ser politicamente correto ou pôr em dúvida minha própria masculinidade, acho que o tom machistinha (por conseqüência preconceituoso) prejudicou um pouco a investigação. Acho que nossos sexualmente diversos saíram um pouco ridicularizados nesta.

Mas não há de ser nada. Só digo isso porque os srs. me pagam muito bem para ser o ombudsman dessa joça.

Sucesso a todos!
 
Fala Sabbag...

Primeiramente, agradeço a audiência (qualificada) e os votos de sucesso. Muito obrigado, meu nobre!

Durante a confecção não me preocupei se a reportagem ficaria gay, politicamente correta, machista ou o que quer que seja. A única intenção por aqui é mostrar a nossa visão sobre "ambientes" diferentes. E uma Parada Gay é sim um ambiente estranho para nós, o que não significa que não possamos conviver pacificamente com este mundo. Todas as brincadeiras são em cima do fato de não pertencermos a esse contexto. Que elas possam soar preoconceituosas, tudo bem, é um risco que se corre. Mas são sinceras, sem querer atingir nem exaltar. Não foi o nosso objetivo ridicularizar, apenas brincar de forma saudável. Afinal, comparecer ao evento, tirar fotos, escrever, se expor sem problemas nesse contexto (todo mundo que ficou sabendo da matéria tirou sarro, numa boa), não é coisa de quem tem problema com a turma alegre.

Enfim, repito, valeu mesmo! Abraço e sempre apareça com críticas destrutivas.
 
Sinto-me honrado por contribuir, ainda que à distância, com esta importante empreitada, tão bem reinaugurada...

Por enquanto, não disponho de piadinhas de duplo sentido que possam celebrar tão magnânimo retorno aos anais (ôpa!).

Abraços e tamos aí pro que der e vier.
 
Fala Merda de Jornalista! O triunfal retorno do Jornalista de Merda se deu (?) em ótimo momento. E também vejo que o blog virou uma organização não-governamental. Muito bem! Longa (?) vida ao blog.
E, seguindo as idéias das frases de duplo sentido acometidas durante a investigação, digo-lhes: "Bola pra frente que atrás vem gente!"
 
Parabéns pela empreitada, e parabéns pela nova página. E minha sugestão de pauta é sobre aqueles celebres bares da rodoviaria velha ou quem sabe o esquecido graxaim. Um grande abraço. Muniz
 
Mais que jornalismo Gonzo, isso é jornalismo gozado (ops! sem "duplo sentido"!). Ou seria jornalismo "Bozó"? Divertido e agradável de ler, de qualquer maneira. Senti falta de "entrevistas". Acho que vocês tirariam coisas divertidas da turma (ops! claro que com "coisas divertidas" quis dizer frases, declarações...).
Abraço e sucesso!
 
Beleza, garoto. Críticas são coisas sempre pentelhas, mas como me considero amigo da casa, tomo tal liberdade. Blog, afinal, não tem mesmo que ter qualquer tipo de tesourada. Mas como vocês agora têm centenas de milhares de fãs, decidi ser a voz dissonante - pelo menos uma vez. :-)

Abraços!
 
parabéns! Destaque para a sensualidade do abbud sempre exuberante, o rapaz realmente é um docinho! Pinga azeite! hehe brincadeiras a parte não parem uma semana e as verdinhas aparecem! abraços

felipe luiz
 
Felicitações pelo retorno em grande estilo do "Jornalista de Merda". Estava sentindo falta da linguagem bacana e despretenciosa (?) da dupla. Grande Abraços aos intrépidos jornalistas.
 
Olha o que eu achei! Clica aí, jovem...
 
senti um tom preconceituoso no texto, mas no geral é bom. tb costumo gozar na blogosfera, dêem uma olhada.

Dado - www.punhetorio.blogger.com.br
 
Péssimo. Um mal gosto gritante. Comentários nada condizentes. Em suma: vacilo.
 
Querido(a), não fique com vergonha de dizer que não gostou. Faça como o Sabbag e o nosso amigo Dado, assine suas idéias. Eu assino as minhas. Se não fica chato.
 
Eu acho engraçado. O que mais se ouvia nos microfones na Parada Gay eram brincadeiras de duplo sentido como as que eu fiz aqui. No entanto, tem gente que quer ser mais viado que os próprios viados, e fica se doendo por nada. De certo, a cobertura da Gazeta deve ter sido adequada, dizendo que a "alegria e a descontração tomou conta da Marechal", quando se sabe que 90% do público do jornal atravessaria a rua se visse um travesti pela frente.
 
preconceituoso e mal escrito.

vou dar unfollow em quem me linkou essa merda no twitter.
 
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