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sexta-feira, maio 21, 2004

 

Apogeu e glória no mundo all-star




É muito comum entre os postulantes à carreira jornalística imaginar que, pouco após o término da faculdade, as benesses inerentes ao trabalho do jornalista batam à sua porta tal qual um passe de mágica. Concluído o curso, pensa a rapaziada, a vida se tornará um agendar infinito de bocas-livres, circulando livremente em meio aos famosos e bem aventurados. Cinemas, shows, jantares, CDs, livros, tudo na faixa. No máximo, ao custo de algumas linhas no dia seguinte. Não é verdade. Pelo menos para a maioria. No meu caso, foi exatamente o que aconteceu. Demorou, reconheço, mas como um Rubinho em minha vida, enfim chegou (em segundo).

Estava eu repousando em berço esplêndido quando o telefone toca: E aí André, aqui é o Omar, da Gazeta do Povo. Eu gostaria que você fizesse uma matéria sobre o Curitiba Pop Festival, topa?. Antes de aceitar, fiz charminho. Perguntei ao Omar se ele conhecia o Ivo Holanda. Dada a resposta negativa, botei fé na jogada. Não era uma pegadinha do Topa Tudo por Dinheiro, era mesmo verdade.

Santo homem. Depois de muito tempo, finalmente, aquela frase do Marcelinho Carioca descortinava-se em minha mente deflagrando seu sentido mais pleno. Os humilhados realmente serão exaltados. Vencidas as dificuldades iniciais, eu estava diante de uma oportunidade excelente.

Eu iria ao CPF de qualquer maneira. Confesso que sou chegado num róque, o embalo dos jovens, a música do dimo. Estava com o ingresso em mãos. Meu irmão, destacado para adquirir o ticket, havia passado incólume ante a provação da compra. No entanto, agora eu poderia comparecer totalmente de grátis. Não preciso nem dizer qual foi a minha resposta. Vocês estão lendo agora.

Destacado para a minha primeira aventura no fantástico mundo do jornalismo musical, tomei o cuidado de traçar um estratagema que diminuísse ao máximo a margem de erro na condução da matéria. Cerquei-me de todos os cuidados. Pesquisei informações sobre as bandas, chequei horário, mapeei acessos, conferi meu material centenas de vezes.

E o mais importante, claro. A credencial. Digo, a magnânima credencial. Sonhada, desejada, idolatrada, salve, salve. Aquele prosaico papelzinho plastificado, estrategicamente pendurado no pescoço, responsável por delírios de pretensão dos jornalistas e arroubos de inveja do público. Meia dúzia de telefonemas depois e o meu passaporte estava garantido. Bastava passar na Pedreira, apresentar-me ao setor de credenciamento e retirar o bichão.

Na quarta-feira anterior ao CPF entrei em regime de concentração. Afinal, não seria uma indisposição qualquer que prejudicaria a minha participação no evento. Dessa forma, segui a cartilha da mamãe. Evitei o sereno, me agasalhei adequadamente, pedi reforço no lanchinho. Na sexta-feira, me encontrava pingando azeite. Acordei cedo. Preparadíssimo, confiante, tranqüilo para dar conta do recado. Até abrir a cortina.

Quando espiei as condições climáticas concluí que a missão seria deveras complicada. O céu desabava. Curitiba estava debaixo dágua. E conhecendo bem a Pedreira Paulo Leminski, senti que o festival mais aguardado do ano estava fadado a se transformar numa espécie de wet and wild pré-histórico com música ao vivo. Em todo o caso, consideradas as disposições em contrário, ou melhor, indisposições, mantive o otimismo babaca.

Guiando minha própria viatura, toquei para a Pedreira. E o que aconteceu no caminho nem o mais fanático por Monteiro Lobato poderia imaginar. O fenômeno que constatei ao volante foi algo estarrecedor. Comparável a um time que perdia de 5 a 0 virar o placar faltando poucos minutos para o encerramento da partida.

O que era ferro virou ouro. O início de tarde cinza e chuvoso transformou-se num entardecer de sol e céu azul. Maravilhado com a mudança do tempo, fiquei imaginando São Pedro ostentando vasta franja ensebada, trajando cardigan e all-star surrado, ouvindo Jesus and Mary Chain.

Cheguei super cedo na Pedreira, antes dos portões para o público serem abertos. Por dois motivos básicos. O primeiro, estando lá de tarde eu poderia, quem sabe, conversar com alguma banda, registrar a passagem de som, enfim, estar por dentro de todos os detalhes do evento. No entanto, o que eu queria mesmo era um desafio de velocidade. Sim, é isso mesmo que você leu. Eu queria apostar uma corrida.

Com a bagagem de quem já compareceu a todo tipo de shows, eu pretendia finalmente vencer o tradicional sprint realizado pelos fãs quando aberto os portões em busca de um bom posicionamento na frente do palco. Nas três vezes em que participei dessa modalidade venci apenas uma. Fiquei com a medalha de bronze no show do Ramones, prata no AC/DC, subindo no alto do pódio apenas na apresentação do Rei Roberto Carlos. O que não é grande vantagem, levando-se em conta que minhas oponentes beiravam os 70 anos.

Qual não foi a minha surpresa quando constatei que não haveria quorum para a competição. Os portões da Pedreira foram abertos e ninguém se habilitou. Eu entrei e, calmamente, caminhei até o triunfo de ser o primeiro a pisar no CPF. Foi uma vitória por WO, mas tudo bem.

O tempo passava e nada do público aparecer. Antes de saltar aos olhos dos presentes a panaquice de ser a única pessoa não pertencente à organização dentro da Pedreira, retirei-me do local, voltando para a entrada. E lá na frente comecei a sacar o espírito do evento.



Considerado o festival de música independente mais importante do Brasil, o Curitiba Pop Festival tratava-se de um evento singular. Para um público diferenciado. Ou melhor, para um público que faz questão de ser diferenciado. Mais do que isso, para um público de aro de óculos diferenciado.

Eu poderia dizer, e você já percebeu, que diferenciado seria uma palavra apropriada para definir o CPF. No entanto, a obsessão pela diferenciação, no caso do público, era tamanha que o processo se inverteu. A maioria das pessoas parecia absolutamente igual. Cortes de cabelo modernos (franjas de toda a sorte), roupas dos avós, óculos de aro grosso e tênis All-Star. Por alguns instantes eu achei que a All-Star havia promovido uma queima de estoque a poucos metros da Pedreira. Um par por um beija-flor.

Ao cair da noite o público começava a chegar em bom número. Porém, pouca gente passava pelas catracas, consagrando a proposta do ver e ser visto. Animação para o show? Ansiedade? Euforia? Nada disso, o princípio era tirar uma onda blasé. Porém, mais uma vez, o destino aprontava das suas e o que parecia sacramentado mudou completamente.



Um velho amigo apareceu na área para me tirar daquele programa de indie. Não sei porquê eu sabia que ele apareceria. O cara mais indie de Curitiba. A representação em carne e osso da gênese do termo. Saudosas tardes em que nos encontrávamos no jogo de um certo time da capital para degustar um mignon e saborear um chopinho. Depois de muito tempo ele estava ali, dando um flagra na preparação para o róque, curtindo o embalo dos jovens. Foi a salvação para a longa espera antes do início dos shows.

Papo em dia, deixei a companhia do bróder para, finalmente, cair matando. O ambiente já estava propício para as primeiras impressões sobre o festival. O público era razoável, a maratona de shows começara e eu devia apreciar tudo in loco. Aliás, não posso deixar passar em branco. A organização do festival era impecável, tudo tinindo trincando. Pelo jeito a produção do CPF é boa de show mesmo. Estraçalhou no show de horrores das vendas dos ingressos, fez bonito na organização e conseguiu trazer o show mais importante de 2004 para Curitiba, os lendários calvos dos Pixies. Exceto pela falta de iluminação nos banheiros, o que fazia da simplória tarefa de urinar uma incursão pelo túnel do terror, da pouca disposição de lugares para comer e da grade de separação, tudo correu sem maiores problemas. Destaque para a atenção dos organizadores com os detalhes. Para um show em que metade do público sentia-se em Londres, providenciar a fumacinha que sai da boca quando se respira foi um golpe de mestre, dando um realce no ambiente.



bom público no primeiro dia. Mesmo que esse público estivesse lá mais para socializar e fazer valer o absurdo preço dos ingressos, do que para desfrutar dos shows. A sexta-feira transcorreu como numa boa noite fria. Todo mundo encolhido, como se estivessem confortavelmente alojados embaixo dos cobertores, naquela preguiça matadora. Nem a atração principal empolgou a rapaziada, arrancando alguns gritinhos tímidos e aplausos contidos. O segundo dia prometia mais.

E não deu outra. Ao chegar na Pedreira no sábado, era nítida a diferença para o dia anterior. Presença de público superior desde o início dos shows. Uma relativa ansiedade pela atração principal da noite no ar. Mas alto lá, aquela ansiedade contida. Pega mal tietagem explícita ou exagero de fã. Infelizmente, ninguém puxou um hit para todos cantarem balançando os braços para o alto. Mais bacana era demonstrar que estava ali para assistir apenas mais um show, como aquele na Brixton Academy.
Mas sabe como é roque, a música do dimo. Bastaram as caixas de som bombarem som de qualidade e a turminha se empolgou. O CPF finalmente transformou-se na Terra Prometida dos indies. Até a faixa de Gaza foi demolida, unindo os fiéis do rock independente.

Concentração máxima. O show mais aguardado depois da apresentação de Raul Seixas no ginásio do Atlético estava para começar. A área próxima do palco era intransitável, rapaziada espremida, contaminando o ar com uma muca densa do cheiro de naftalina dos agasalhos tirados as pressas do armário. Quando não mais do que de repente, pisam o solo sagrado os quatro cavaleiros da santíssima ordem do rock independente.



Aí eu dei crédito para a zeladora do meu prédio. Em êxtase absoluto, o público gelado de outrora esquentava a Pedreira com a magia do róque. Ou seja, mais uma prova que esse estilo musical exerce influência sobrenatural nas pessoas. A cada lapada, uma resposta mais animada do público. Diante de uma banda incrível, o que era pose, frio, cansaço, espera, terminou na mais pura diversão.