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quinta-feira, janeiro 15, 2004

 

Ageu "A Voz" Braga


Quem transita freqüentemente pela Rua XV com certeza já se deparou com essa figura simples, calçado nas sandálias da humildade, roupas castigadas pelo tempo, seje no calor, seje no frio, trajando um casacão marrom e entoando versos arrebatadores do Rei Roberto Carlos. Aos incautos, alerto, saquem caneta e papel e peçam um autógrafo enquanto há tempo, pois em breve não será mais possível sequer estar próximo dele. Ageu Braga, A Voz, um diamante em estado bruto do cancioneiro popular canarinho, galgará os píncaros da glória artística internacional como só os fenômenos são capazes.

E, óbito, eu vou entrar nessa boquinha. Para tanto, convidei o agitador cultural, jornalista consagrado e homem-gol nas horas vagas, Rodrigo Abud, filho do mecenas da arte curitibana, Jorginho Abud, para que juntos pudéssemos tratar da carreira de Ageu A Voz Braga. E quem, como nós, já enxaguou o figo e fumou muita bosta de vaca em mais de 20.000 vernissagens e agitações culturais por todo o Brasil sabe que nada melhor que uma boa performance para introduzir um produto no mercado.



E onde mais poderíamos realizar uma performance de estréia de Ageu Braga perante seus futuros fãs do que em seu habitat natural? A Rua XV, palco preferido do cantor, onde Ageu conhece todos os macetes, decorou as reverberações e microfonias, sem dúvida era o lugar ideal.

Após desleixada avaliação do público alvo eu e Abud adotamos uma estratégia de lançamento à moda antiga. Show pirotécnico, dançarinos, brindes, maquiagem e ônibus vindos da região metropolitana lotados de pessoas ávidas por uma laranjada e um churros ficariam reservados para a consagração final. A nível de lançamento de cantor, o mais indicado era mesmo nossa idéia de que o cantor deve ir aonde o povo está.

Como a Rua XV não comportava o público mínimo para uma estréia de tamanha envergadura, resolvemos adaptar a frase e levar Ageu Braga não onde o povo está, mas onde o povo está e tem que ficar pois pagou pra entrar e está esperando sua vez: um karaokê!! Claro, nada melhor que um local recheado de pessoas com pouco faro musical e disposição de sobra com seus ouvidos/penicos para lançar um produto que não tivemos tempo disponível para oferecer pelo telefone ou dar de graça em saída de colégio.



Dessa forma, qualquer resultado seria vantajoso para nós. Artistas e produtores não sairiam perdendo de jeito nenhum, mesmo que o público não abraçasse Ageu Braga como o sucessor do Rei. O que, diga-se de passagem, poderia acontecer, pois em terra de ouvido/penico bufa de marmelo risca de varão.

E assim foi feito. Carregamos Ageu Braga nos braços até o karaokê mais próximo. O povão ovacionava a passagem do ídolo, numa comoção que lembrou muito a primeira manifestação pelas Diretas Já realizada naquele mesmo local. Um sucesso estrondoso.

Porém, o destino, sempre ele, a inefável mão do capeta, nos reservou uma desagradável surpresa. O karaokê estava fechado. Os olhos marejaram e o peito já castigado pelas intempéries da vida sentiu o golpe da decepção.



Mas não havia de ser nada. Após calorosa troca de olhares com as meninas do HSBC que recebiam os convidados para os festejos de natal do Palácio Avenida, Ageu Braga saiu de cabeça em pé, afinal, sua trajetória de sucesso é apenas uma questã de tempo.

Saímos os 3 caminhando pela Rua XV, certos do dever cumprido e ansiosos pelo dia em que Ageu Braga emocionará as multidões...